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A dona da história: A retórica do enunciador e a semiótica na narrativa fílmica

3º dia do evento

Re: A dona da história: A retórica do enunciador e a semiótica na narrativa fílmica

Mensagempor Liliane Scarpin » Qui Jun 09, 2011 02:45

A narrativa filmica se concentra na perspectiva da superação de um estado disfórico do enunciador. Trata-se de um tempo parado que precisa se desprender e essa transição vem sintetizada nas cenas que se seguem onde o enunciador expõe seus sentimentos e coloca-se disposto a mudar uma situação que julga desagradável usando mais a razão do que o coração.
Durante toda narrativa apresentam-se a euforia e disforia do enunciador e isso podemos notar na posição espaço-temporal-afetiva do sujeito. O texto traz um equilíbrio, mas dinâmico e deixa espaço para o aparecimento de um elemento surpresa que causa a transformação dos estados.
Vejamos agora o texto seguinte e posteriormente o analisaremos apresentando a euforia e a disforia contidas nele.

Texto 3
Carolina 1 está deitada e ouve uma música, vai à janela e vê Luís Cláudio tocando violão e cantando, sua imaginação divaga pensando nos carinhos de Luís Cláudio.
“Luís Cláudio eu tenho uma coisa pra te falar ... é muito sério...eu tava naquela passeata de graça, eu não tinha a menor idéia do que era aquilo ali, eu não sou a favor de melhores condições de ensino...eu não passo de uma alienada... não luto por causa nenhuma , odeio todo tipo de luta, principalmente boxe, eu enganei você Luís Cláudio, desculpa...Você não diz nada?”
Luís Cláudio observa Carolina encantado, sobe ao seu quarto dizendo versos, mostrando que a perdoara.
“Você fala que parece até um filme ... (Luís Cláudio afirma que é um filme) parece que até já ensaiou outras vezes com outras meninas...”
No início da cena manifesta-se a euforia retratada na emoção de Carolina ao ver o grande amor de sua vida cantando para ela, mas esse clima é quebrado quando Carolina começa a dizer para Luís Cláudio que o enganou e pede perdão, nem mesmo o toque de humor usado por Carolina “... odeio todo tipo de luta, principalmente boxe...” parece fazer com que seja mantida a euforia, passando assim para a disforia enquanto na cena a câmera focaliza Carolina, porém volta a euforia quando a câmera focaliza Luís Cláudio com olhar apaixonado.
Essa ocorrência é vista em todo texto, pois a sucessão de fatos garante um desenvolvimento onde a tensão é quebrada a todo momento pela emoção dos personagens, principalmente da personagem-narrador.
Vejamos o próximo texto.

Texto 4
Carolina e Luís Cláudio chegam ao prédio onde ela será pedida em casamento. Luís Cláudio vai pelas escadas enquanto Carolina sobe pelo elevador. Dentro do seu futuro apartamento Carolina ouve um barulho, vai andando na direção desse barulho até chegar em uma porta. Então, acontece uma situação inusitada. Ela abre uma porta e encontra-se com seu futuro em um banheiro enquanto seu “futuro” termina de tomar um banho. As coisas acontecem como se fosse em um conto de fadas, não há estranhamento entre as personagens da cena, todo diálogo acontece naturalmente.
“C1: - É assim que eu vou ser?
C2: - Assim como?
C1: - Assim como você?
C2: - ...me achou velha? Eu sou velha sim... é de uma hora pra outra... a pessoa está assim distraída e quando vê ficou velha.
C1: - Mas você está ótima... conservada...
C2: - Conservada não que eu não sou palmito.
C1: - Desculpa.
C2: - Sabe quando foi que eu descobri que estava velha?
C1: - Quando?
C2: - Eu não vou estragar sua surpresa.
C1: - ...o que que vai acontecer comigo nesses anos todos?
C2: - Vocês vão ter quatro filhos...
C1: - Adorei. Que mais, heim?
C2: - Mais... você queria mais né? Você queria o quê?
C1: - A minha vida não vai ser uma história como de um filme?
C2: - Não era filme, era a vida... vida normal... filme sai pulando as partes chatas e só exibe os melhores momentos, acaba quando acha bom acabar, vida continua.
C1: - E o Luis Cláudio?
C2: - Vai pra Cuba, sozinho.
C1: - Sem mim?
C2: - É, eu mandei ele.
C1: - Ah, não, você não fez isso comigo, você não mandou embora o grande amor de sua vida...
C2: - O grande amor da minha vida, não é coincidência demais com tantos homens no mundo o grande amor da minha vida ser um cara que ia a praia justo em frente a minha rua? Não é coincidência demais o grande amor da minha vida ter aparecido justo na minha vida?
C1: - E isso... o que que eu vou fazer com isso que começou naquele exato momento em que eu vi o Luis Cláudio e que está assim até agora, vai passar, passou pra você?
C2: - Passa.
C1:- Comigo não vai ser assim.
C2: - Comigo não foi diferente e com você também não vai ser... como eu era burra quando tinha essa idade...
C1: - Eu vou mudar tudo... eu não quero esse final triste... como eu vou ser burra quando tiver sua idade... eu vou fazer completamente diferente do que você fez...
...
C2: - Vê lá que você vai fazer, heim?
C1: - Vê lá como você vai contar.”
Luís Cláudio pede Carolina 1 em casamento e ela não aceita.

Esse encontro é a parte mais intrigante da narrativa filmica, tudo parece, inicialmente , fazer parte da imaginação de C2, porém no desenvolvimento da cena percebemos que na verdade são duas personagens , uma época entrando dentro de outra, fundindo-se. O diálogo das personagens transcorre normalmente, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma pessoa encontrar-se com seu passado e vice-versa.
Nesse texto podemos perceber nitidamente a sequência dos fatos e a euforia que se apresenta no início da cena e vai sendo substituída pela disfonia no decorrer dela.
A grande tensão inicial que mostra a alegria de Carolina ao conhecer seu futuro apartamento é substituída rapidamente pela decepção ao conhecer seu futuro como mulher, durante a cena as personagens estão dentro de um banheiro, C1 questiona o tempo todo C2 que responde as perguntas como quem não teve escolhas e deixou que a vida a levasse, no final da cena C1 resolve que vai mudar sua vida, que o que viveu naquela vida com o “homem errado” é pouco perto dos seus sonhos e a disfonia é instaurada quando Carolina não aceita o pedido de casamento de Luís Cláudio.
O encontro de C1 com C2 pela segunda vez inverte as posições dos estados da personagem principal, inicia-se disfório e transforma-se em eufórico.

Texto 5
Ao ver uma mulher com aparência triste e envelhecida C1 fica entristecida.
“Eu não sou assim... eu não sou uma interesseira... eu não posso ter me transformado em você...você nunca teve outro amor...você é solteirona... eu não quero ser você... será que tem alguma coisa que eu possa fazer?”
Incentivada por seu futuro Carolina vai à festa de Maria Helena.
A tensão inicial da cena mostra C2 contando como é sua vida, com desânimo, mais desanimada e decepcionada fica C1, percebe-se pelas falas do texto, trata-se da disfonia que transformada em euforia quando Carolina resolve ir à festa de Maria Helena.
No terceiro encontro e último de C1 com C2 a cena começa com a tensão inicial eufórica, pois C2 é uma atriz muito famosa e C1 quer ser como ela, principalmente quando descobre que teve e tem diversos amores e nem se lembra mais de Luís Cláudio, porém esse estado é transformado quando C1 pergunta a C2 se ela deixaria todo aquele sucesso por seu grande amor e C2 lhe faz a mesma pergunta e obtém como resposta a saída tempestuosa de C1 que quer resgatar o seu passado com Luís Cláudio e tudo culmina com um total estado de euforia, ou seja, final feliz.
Somente no final do filme o enunciador percebe que poderia mudar sua história quantas vezes quisesse que nada seria tão perfeito quanto a situação inicial (primeiro encontro das personagens) que se encontrara com seu futuro, nas duas épocas de sua vida e em todas as histórias que modificou tinha apenas um amor, descobriu enfim que sempre foi “a dona da história”.
Liliane Scarpin
 
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Re: A dona da história: A retórica do enunciador e a semiótica na narrativa fílmica

Mensagempor OMAIR » Sex Jun 10, 2011 10:11

Para pensarmos sobre a narrativa fílmica: apesar da hegemonia norte-americana, na história do cinema há uma diversidade de propostas, que podem provocar diferenciadas recepções nos espectadores. Vejamos por exemplo o cinema poético e lento de Tarkovski, que nos brinda com imagens que têm a possibilidade de nos remeter à profundidade do inconsciente.
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Re: A dona da história: A retórica do enunciador e a semiótica na narrativa fílmica

Mensagempor Freitas » Seg Jun 13, 2011 11:36

Muito legal seu trabalho e as indicações bem a proveito.
Freitas
 
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Re: A dona da história: A retórica do enunciador e a semiótica na narrativa fílmica

Mensagempor amitinhass » Sex Jul 22, 2011 03:23

Adorei Muito bom mesmo!
amitinhass
 
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